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O rio não é mercadoria: a batalha das comunidades ribeirinhas e faveladas pelo direito à água

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O rio não é mercadoria: a batalha das comunidades ribeirinhas e faveladas pelo direito à água

Tem gente que olha para um rio e enxerga paisagem. Tem empresa que olha e enxerga lucro. E tem comunidade que olha e enxerga vida — porque é exatamente isso que o rio representa: água para beber, peixe para comer, história para contar, território para defender. É dessa última perspectiva que nasce uma das lutas mais urgentes e menos visíveis do Brasil de hoje.

De Norte a Nordeste, do interior do Pará às favelas cariocas cortadas por córregos, populações ribeirinhas, quilombolas e periféricas estão de frente com um inimigo que usa terno, fala em desenvolvimento e chega com licença ambiental na mão. A disputa pela água não é nova, mas ganhou contornos cada vez mais agressivos num país onde o agronegócio, as mineradoras e os consórcios de energia seguem avançando sobre territórios que não lhes pertencem.

Quando o rio morre, a comunidade sangra

Na Amazônia, o nome Belo Monte ainda carrega o peso de uma ferida aberta. Mais de dez anos depois do início das obras, comunidades indígenas e ribeirinhas do Xingu seguem enfrentando as consequências de uma das maiores hidrelétricas do mundo: peixes que sumiram, praias que desapareceram, roças inundadas, modos de vida destruídos. O que foi vendido como progresso virou luto coletivo.

Mas a lógica predatória não fica só nos grandes projetos. No Maranhão, pequenas barragens construídas sem consulta prévia às comunidades quilombolas têm alterado o curso de igarapés que abasteciam famílias há gerações. No Ceará, a transposição do São Francisco — apresentada como solução para a seca — beneficiou mais o agronegócio irrigado do que as populações que dependiam do rio para sobreviver. A água flui, mas não para quem mais precisa.

Nas cidades, o problema tem outro rosto — mas a mesma raiz. Favelas construídas às margens de rios urbanos convivem com o descaso do poder público que, ao invés de investir em saneamento, ameaça remover comunidades inteiras sob o pretexto de "preservação ambiental". O paradoxo é cruel: quem sempre cuidou do rio agora é tratado como problema.

Organizar a beira do rio

Mas onde há ameaça, há também resistência. E ela tem nome, endereço e assembleia marcada.

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) é um dos pilares dessa batalha há mais de três décadas. Com atuação em mais de quinze estados, o movimento reúne comunidades diretamente afetadas por grandes obras de infraestrutura hídrica e pauta tanto a reparação dos danos quanto a construção de uma política energética que respeite os territórios. "A água é um bem comum, não uma commodity", repete o movimento em cada ato, em cada ocupação, em cada audiência pública disputada palmo a palmo.

Mas a luta vai além das grandes organizações nacionais. Em Belém, coletivos de mulheres ribeirinhas têm mapeado nascentes ameaçadas e criado redes de vigilância comunitária para denunciar despejos ilegais de efluentes industriais. No Rio de Janeiro, moradores da Maré e de outras favelas cortadas por canais e rios urbanos se articulam para exigir saneamento sem remoção — porque sabem que a "solução" do Estado quase sempre vem com escavadeira e ordem de despejo.

No interior de Minas Gerais, ainda marcado pelo trauma de Mariana e Brumadinho, comunidades quilombolas às margens do Rio Paraopeba criaram comitês populares para monitorar a qualidade da água e pressionar empresas e governos por reparação. Não esperam mais que a fiscalização oficial apareça. Fizeram da vigilância um ato político.

A privatização silenciosa

Se as barragens e a contaminação são ameaças visíveis, a privatização da água opera de forma mais sorrateira — mas não menos devastadora. O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, abriu caminho para que empresas privadas assumam o controle dos serviços de água e esgoto em todo o país. Na prática, significa que a lógica do lucro passa a ditar quem tem acesso a um bem que deveria ser de todos.

Nas periferias urbanas, onde o abastecimento já era precário, a chegada de concessionárias privadas tem resultado em tarifas inacessíveis, cortes arbitrários e ausência de investimento nas áreas menos rentáveis. Quem mora no asfalto paga a conta. Quem mora no barro, paga mais ainda — ou fica sem água.

Organizações como a Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental e a Coalização Negra por Direitos têm denunciado o racismo ambiental embutido nesse processo: são as comunidades negras e indígenas as primeiras a sofrer com a escassez e as últimas a receber investimento em infraestrutura hídrica. Não é coincidência. É estrutura.

Água une quem a luta separa

Um dos aspectos mais potentes da luta pela água é a sua capacidade de construir pontes entre territórios e sujeitos que raramente se encontram. Ribeirinhos da Amazônia e favelados do Rio de Janeiro têm, à primeira vista, pouco em comum. Mas quando a pauta é o direito à água limpa e acessível, as trincheiras se aproximam.

Esse encontro já acontece em fóruns como o Encontro Nacional de Comunidades Atingidas por Barragens e em caravanas de solidariedade que levam moradores urbanos a conhecer a realidade dos territórios inundados. A troca não é só simbólica: gera aprendizado político, fortalece argumentos e cria laços que resistem além de cada campanha.

A água, que os mercados querem transformar em produto, se torna, nas mãos das comunidades, um elemento de coesão. Defender o rio é defender o território. Defender o território é defender a vida. E defender a vida, nesse país, é sempre um ato coletivo.

O que está em jogo

O Brasil é o país com maior reserva de água doce do planeta. Essa abundância, no entanto, nunca foi sinônimo de acesso universal. Enquanto o agronegócio usa bilhões de litros para irrigar exportações, comunidades quilombolas caminham quilômetros carregando água na cabeça. Enquanto mineradoras despejam rejeitos nos rios, crianças ribeirinhas adoecem com doenças evitáveis.

A luta pela água, portanto, não é ambientalista no sentido estreito do termo. É uma luta de classe, é uma luta antirracista, é uma luta feminista — porque são as mulheres que mais carregam o peso da escassez, dentro e fora de casa.

As comunidades que estão na linha de frente dessa batalha sabem que não podem esperar que o Estado resolva o que o Estado ajudou a destruir. Por isso organizam, monitoram, denunciam, ocupam e constroem alternativas. Por isso transformam o rio em trincheira.

E enquanto houver quem lute, o rio segue correndo.

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