Axé, reza e resistência: quando o sagrado vira escudo contra as violências do mundo
Tem um cheiro de erva queimada que muita gente da periferia reconhece antes mesmo de saber o nome. É o cheiro de defumação, de arruda, de guiné. É o cheiro que precede uma roda, uma oração, um momento de encontro que vai além do que os olhos veem. Pra muita gente, esse cheiro é sinônimo de acolhimento — o tipo que nenhuma política pública ainda conseguiu entregar de forma consistente.
No Brasil, as práticas espirituais afro-brasileiras e indígenas carregam séculos de perseguição nas costas. E ainda assim sobreviveram. Não por acaso: elas são, em si mesmas, uma forma de resistência. Uma memória viva que recusa ser apagada.
O terreiro como território de cuidado
Quando a gente fala em territórios de resistência, é comum pensar em ocupações, em assembleias, em manifestações na rua. Mas tem um espaço que raramente aparece nas narrativas dos movimentos sociais — e que, na prática, sustenta muita coisa: o terreiro.
Nos terreiros de candomblé, umbanda e outras tradições de matriz africana, o que acontece não é só ritual religioso. É escuta. É cuidado com o corpo e com a mente. É uma rede de suporte que funciona há gerações, muito antes de qualquer CAPS ou CRAS existir.
"A gente cuida de gente que chegou drogada, que perdeu filho pra bala, que tá sem chão", conta Mãe Dalva, ialorixá de um terreiro no subúrbio do Rio de Janeiro. "O orixá não pergunta se você tem documento, se você tem endereço. Ele acolhe."
Essa dimensão de cuidado coletivo é central. Num contexto em que o Estado falha sistematicamente em garantir saúde mental, moradia e dignidade para populações negras e periféricas, os espaços sagrados acabam funcionando como redes de apoio paralelas — e muitas vezes mais eficazes.
Ancestralidade como âncora política
Não é exagero dizer que reconectar com a ancestralidade é um ato político. Quando uma jovem negra aprende a história dos seus orixás, quando um jovem indígena participa de um ritual de cura do seu povo, o que acontece é uma ruptura com a narrativa colonial que sempre disse que eles não tinham história, cultura, ou valor.
Essa reconexão tem efeito direto na autoestima, na identidade e na disposição para lutar. Movimentos como o Movimento Negro Unificado e coletivos de mulheres negras há muito tempo reconhecem isso. A espiritualidade não é separada da política — ela a alimenta.
"Quando eu entendi que minha avó que rezava era guardiã de um conhecimento milenar, eu parei de ter vergonha. Passei a ter orgulho. E aí eu quero proteger isso, quero lutar por isso", diz Fernanda, militante de um coletivo de cultura negra em Belo Horizonte.
Essa transformação subjetiva — de vergonha para orgulho, de invisibilidade para identidade — é o que sustenta muita luta de longo prazo. Não é possível resistir por décadas sem alguma raiz que te segure.
As benzedeiras e o cuidado que o SUS não alcança
Nas regiões mais afastadas dos centros urbanos, e também nas periferias das grandes cidades, as benzedeiras ainda são referência de saúde. Elas tratam quebranto, espinhela caída, mau-olhado — mas também ansiedade, tristeza, sensação de desamparo. Com ervas, com palavras, com presença.
Esse saber popular é frequentemente desqualificado pela medicina hegemônica. Mas é reconhecido por quem vive de perto. E cada vez mais, pesquisadores e profissionais de saúde comprometidos com a equidade estão documentando e valorizando essas práticas como parte de um sistema de saúde mais amplo e culturalmente situado.
O problema é que as benzedeiras, assim como os terreiros, são alvos constantes de intolerância religiosa. Ataques a terreiros de matriz africana aumentaram nos últimos anos. Muitas dessas casas ficam em territórios disputados — e quando a especulação imobiliária ou o tráfico avança, o sagrado perde espaço.
Proteger esses espaços é, portanto, também uma luta pela moradia. Pelo direito de existir num lugar. Pelo direito de praticar a fé sem medo.
Rituais como forma de processar a dor coletiva
A violência do Estado — bala perdida, desocupação forçada, encarceramento em massa — deixa marcas que vão além do físico. O luto coletivo das comunidades negras e periféricas precisa de espaço pra ser processado. E muitas vezes, esse espaço é criado pelos rituais.
Cerimônias de encruzilhada, rodas de cura, cantos coletivos — esses momentos permitem que a dor seja nomeada, compartilhada e, aos poucos, transformada. Não apagada: transformada. Há uma diferença importante aí.
"A gente não esquece quem a gente perdeu. A gente faz memória com o corpo, com a voz, com a roda", explica Seu Benedito, pai de santo e liderança comunitária no Maranhão. "E aí a gente levanta de novo."
Essa capacidade de levantar de novo, de se reorganizar depois de cada golpe, é o que os movimentos sociais chamam de resiliência. Mas a espiritualidade vai além: ela oferece um sentido. Uma narrativa que diz que a luta tem valor, que os ancestrais caminham junto, que a comunidade não está sozinha.
O sagrado sob ataque — e a resposta coletiva
A intolerância religiosa no Brasil tem nome, rosto e endereço. Ela é majoritariamente dirigida às religiões de matriz africana e às práticas espirituais indígenas. E ela não é só simbólica: é física, é violenta, é sistemática.
Diante disso, comunidades e movimentos têm respondido com organização. Redes de proteção aos terreiros, campanhas de visibilidade, ações jurídicas, articulações com parlamentares progressistas. A defesa do sagrado virou pauta política explícita.
E isso faz todo sentido. Porque quando um terreiro fecha por pressão, quando uma benzedeira para de atender por medo, quando um ritual indígena é proibido — o que se perde não é só cultura. Perde-se um elo de cuidado, de memória e de resistência que nenhuma outra instituição substitui.
Espiritualidade não é fuga — é raiz
Há um preconceito, inclusive dentro de alguns setores da esquerda, que trata a espiritualidade como alienação, como fuga da realidade. Esse olhar é não só equivocado — é colonial.
As comunidades que sustentam suas lutas com raiz espiritual não estão fugindo de nada. Estão, ao contrário, mais inteiras. Mais conectadas com sua história, com seu corpo, com seu coletivo.
A Caravana Solidária acredita que qualquer projeto de transformação social que ignore essa dimensão está incompleto. Porque a mudança do mundo começa também na mudança de quem a gente é — e quem a gente decide ser tem muito a ver com o que a gente carrega de onde veio.
Axé, força e resistência. Que a luta siga — de corpo, de alma e de raiz.