Existir é resistir: como pessoas trans e não-binárias estão construindo poder político desde as margens
Tem uma frase que circula muito nas rodas de ativismo trans no Brasil: existir já é um ato político. Parece simples, mas carrega o peso de uma realidade brutal. O Brasil lidera, há anos seguidos, o ranking mundial de assassinatos de pessoas transgênero. Não é estatística abstrata — é nome, é rosto, é comunidade que chora e que, mesmo assim, volta para a rua no dia seguinte.
O que este texto quer contar não é só sobre dor. É sobre como, dentro dessa dor, se organiza uma das formas mais criativas e potentes de resistência que a política popular brasileira tem visto nos últimos anos.
Quando a rua deixa de ser inimiga
Para muitas pessoas trans, especialmente as mais pobres e negras, a rua sempre foi um lugar de perigo. Espaço de violência policial, de abandono familiar, de sobrevivência precária. Mas nas últimas décadas, e com força crescente nos últimos anos, a rua também virou palco de afirmação.
As Paradas do Orgulho LGBT+ são o exemplo mais visível, mas estão longe de ser o único. Pelo Brasil afora, coletivos trans ocupam calçadas, praças e prédios abandonados com uma clareza de pauta que muitos movimentos mais antigos ainda estão tentando construir. Em São Paulo, no Rio, em Fortaleza, em Belém — e também em cidades médias que a grande mídia nunca vai cobrir — grupos de travestis, mulheres trans, homens trans e pessoas não-binárias estão disputando não só visibilidade, mas poder.
"A gente não quer só ser vista. A gente quer decidir", resume Kauã, militante de um coletivo trans periférico de São Paulo que prefere não revelar o sobrenome por questões de segurança.
Moradia como trincheira
Um dos pontos onde essa luta se torna mais concreta é o da moradia. Pessoas trans enfrentam altas taxas de expulsão de casa ainda na adolescência — muitas vezes pelo próprio núcleo familiar. Sem teto, sem renda formal e com o mercado de trabalho fechado, a rua vira não só metáfora mas realidade física.
É nesse contexto que surgem iniciativas como repúblicas trans, ocupações organizadas por e para pessoas LGBTQIA+, e redes de acolhimento que funcionam de forma autogestionada. No Rio de Janeiro, coletivos que atuam em favelas da Zona Norte mantêm listas de famílias e indivíduos trans que precisam de abrigo emergencial. Em Recife, uma ocupação urbana organizada há alguns anos reservou parte de suas unidades para pessoas em situação de vulnerabilidade por identidade de gênero.
Essas iniciativas dialogam diretamente com o movimento de luta por moradia mais amplo — e essa interseção não é acidente. É estratégia. "Quando a gente entra numa ocupação junto com famílias sem-teto, a gente mostra que nossa luta não é separada da luta de classe. A gente é parte da classe trabalhadora, só que com mais camadas de opressão em cima", explica Dandara, liderança trans de um movimento de moradia no interior paulista.
Redes que o Estado não oferece
Na ausência — ou na hostilidade — do poder público, as redes de proteção mútua se tornam infraestrutura de sobrevivência. Grupos de WhatsApp que avisam sobre operações policiais em determinadas regiões. Fundos coletivos para cobrir custos de documentação, medicamentos de hormonização e passagens de ônibus para consultas médicas. Listas de advogadas e advogados que atendem casos de violência sem cobrar.
Essa economia do cuidado, construída de forma quase invisível, é o que mantém muita gente viva. E é também escola política. Quem entra numa rede dessas aprende, na prática, o que é solidariedade de verdade — não como discurso, mas como ação cotidiana.
"A gente aprende que quando uma de nós cai, todas caímos. E quando uma se levanta com apoio, traz as outras junto", conta Thamires, jovem não-binária que coordena um grupo de apoio mútuo em uma cidade do interior do Nordeste.
Intersecções que fortalecem
Um dos elementos mais interessantes desse momento do ativismo trans brasileiro é a recusa em lutar de forma isolada. Há uma consciência crescente de que as opressões se cruzam — e que as alianças precisam refletir isso.
Movimentos trans negros pautam o racismo dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Coletivos trans indígenas denunciam como a colonização atacou tanto os corpos quanto as identidades de gênero originárias. Grupos trans periféricos se aproximam de movimentos feministas populares, de associações de moradores, de sindicatos de trabalhadores informais.
Essa costura não é sem tensão. Há disputas internas, há aprendizados difíceis, há momentos em que as diferenças parecem maiores do que os pontos em comum. Mas a tendência que se consolida é a de uma política que entende que ninguém se liberta sozinho.
"A gente não vai conseguir mudar nada sendo um grupo isolado. Precisamos de aliadas, de frentes amplas, de lutas que se reconhecem", afirma Kauã.
Narrativa como disputa de poder
Além das ruas e das redes, há outra frente de batalha: a das palavras. Quem conta a história de pessoas trans no Brasil, em geral, não são elas mesmas. São jornalistas que as tratam como curiosidade, políticos que as usam como alvo, ou bem-intencionados que falam sobre sem falar com.
Isso está mudando. Produtoras audiovisuais trans, podcasts feitos por e para a comunidade, perfis nas redes sociais que constroem narrativas próprias — tudo isso compõe uma disputa pela representação que tem impacto real na política. Quando a história é contada por quem viveu, o enquadramento muda. E quando o enquadramento muda, a possibilidade de empatia — e de aliança — cresce.
O que a caravana aprende com essa luta
A Caravana Solidária existe para documentar movimentos que muitas vezes não aparecem nos grandes veículos. E a luta das pessoas trans e não-binárias no Brasil é, sem dúvida, um desses movimentos que merecem mais do que manchete ocasional.
O que ela ensina para o conjunto das lutas sociais é muito: que a vulnerabilidade extrema pode gerar organização potente; que o cuidado mútuo é política; que a intersecção de opressões exige intersecção de resistências; e que existir, quando o sistema quer te apagar, é sim um ato revolucionário.
As pessoas trans e não-binárias deste país não estão pedindo licença para existir. Estão ocupando o espaço que é delas — nas ruas, nas ocupações, nas narrativas, nas alianças. E estão convidando o restante dos movimentos populares a caminhar junto.
A caravana segue. E ela é mais forte quando ninguém fica pra trás.