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Raízes que não se arrancam: a força das mulheres indígenas e quilombolas na defesa dos seus territórios

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Tem uma cena que se repete em diferentes cantos do Brasil: uma mulher de pé diante de uma máquina, de um oficial de justiça, de um pistoleiro contratado por fazendeiro. Ela não recua. Atrás dela, a comunidade. Na memória, os mais velhos. Na boca, um nome de lugar que não aparece em nenhum mapa oficial — mas que é o centro do mundo para quem nasceu ali.

Essas mulheres têm nomes, histórias e lutas concretas. São indígenas Munduruku no Pará, quilombolas no Maranhão, guardiãs do cerrado em Goiás. E estão cada vez mais no centro de um enfrentamento que o Brasil teima em ignorar: a disputa pelo controle dos territórios tradicionais.

O território como corpo, o corpo como território

Para entender por que tantas mulheres indígenas e quilombolas assumem a dianteira da resistência ambiental, é preciso abandonar a lógica do ambientalismo urbano — aquele que fala em "preservação" como se a natureza fosse um museu a ser protegido de longe.

Nas comunidades tradicionais, o território não é propriedade. É parentesco. É farmácia, é escola, é cemitério, é cozinha. Quando uma mineradora chega ou quando o rio é represado, não é só o meio ambiente que morre — é a possibilidade de continuar sendo quem se é.

Mulheres como Maria Leusa Munduruku, do Pará, ou Vanda Witoto, que ganhou projeção nacional como uma das vozes da Amazônia durante a pandemia, articulam esse entendimento com uma clareza que nenhum relatório técnico consegue reproduzir. "A floresta não é recurso. A floresta é vida. E vida não se negocia", disse Vanda em um encontro de povos da floresta em 2022.

Essa visão não é romântica — é estratégica. E é exatamente por isso que essas lideranças incomodam tanto.

Grilagem, desmatamento e violência: o contexto que elas enfrentam

O Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para defensoras e defensores ambientais. O relatório da Global Witness de 2023 voltou a colocar o país entre os líderes em assassinatos de ativistas ligados à terra. E não por acaso: a maioria das vítimas são pessoas negras, indígenas, de regiões periféricas.

A grilagem — a prática ilegal de falsificar documentos para se apropriar de terras — avançou de forma brutal nos últimos anos, especialmente na Amazônia e no Matopiba, o cerrado que cobre partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Comunidades quilombolas que vivem nessas regiões há séculos se veem cercadas por soja, eucalipto e gado — e sem qualquer proteção efetiva do Estado.

É nesse cenário que mulheres como Dona Domingas, liderança quilombola no Maranhão, passam as noites vigiando os limites do território com lanterna e celular na mão, registrando tudo em vídeo. "A gente aprendeu que o que não é documentado, não existiu", ela conta. "Então a gente documenta tudo."

Saber ancestral como ferramenta política

Uma das coisas mais poderosas que essas mulheres fazem é recusar a separação entre conhecimento tradicional e estratégia política. Para elas, as duas coisas sempre foram a mesma.

O conhecimento sobre plantas medicinais vira argumento jurídico para demarcação de terra. O canto ritual vira ato político em audiência pública. A memória oral dos mais velhos vira prova histórica em processos de titulação quilombola. Elas transitam entre o Conselho da Aldeia e a Comissão da Câmara dos Deputados sem abrir mão de nenhum dos dois mundos.

Essa habilidade de circular entre saberes diferentes é o que torna essas lideranças tão eficazes — e tão ameaçadoras para quem quer que o campo continue sendo apenas um lugar de extração.

Algumas dessas mulheres participam de redes nacionais como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), que nos últimos anos ampliaram muito o protagonismo feminino nas suas estruturas de liderança.

Quando a resistência vira movimento

Não é coincidência que eventos como o Acampamento Terra Livre, em Brasília, e a Marcha das Mulheres Negras tenham se tornado espaços cada vez mais centrais na agenda política brasileira. Eles expressam algo que vem se construindo nas bases há décadas: a organização coletiva de mulheres que não esperam por salvadores externos.

Essas caravanas de resistência — e o nome não é por acaso — percorrem o país, conectam comunidades, trocam estratégias e constroem solidariedade horizontal. Uma liderança Xavante do Mato Grosso aprende com uma quilombola do Recôncavo Baiano. Uma guarani-kaiowá do Mato Grosso do Sul inspira uma jovem ribeirinha do Amazonas.

A luta ambiental, nesse contexto, é inseparável da luta por direitos, por reconhecimento e por soberania. Não se trata de salvar a floresta para o planeta. Trata-se de garantir que os povos que a habitam há milênios possam continuar existindo.

O que o resto do Brasil precisa entender

Enquanto o debate climático nas grandes cidades gira em torno de carros elétricos e energia solar, as mulheres indígenas e quilombolas já estão fazendo o trabalho mais difícil: segurar, com o próprio corpo, o avanço da destruição.

Ignorar isso é mais do que ingratidão. É uma forma de racismo ambiental — a ideia de que certas vidas e certos saberes valem menos na equação da sobrevivência coletiva.

A Caravana Solidária acredita que contar essas histórias é parte do trabalho político. Não como espetáculo de sofrimento, mas como reconhecimento de que a resistência já existe, já é potente, e precisa de aliados que estejam à altura.

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