Quem segura a comunidade de pé: o poder invisível das mulheres que lideram sem holofote
Photo: Steffen Prößdorf, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
Tem uma cena que se repete em quase toda ocupação urbana, em todo movimento de moradia, em toda campanha comunitária do Brasil: quando a reunião termina, quando o microfone é desligado e as câmeras vão embora, são as mulheres que ficam. São elas que dobram as cadeiras, que anotam o que ficou pendente, que ligam para quem faltou, que pensam no próximo passo. E na manhã seguinte, recomeçam.
Essa invisibilidade não é acidente. É estrutura.
O trabalho que ninguém vê — mas que faz tudo funcionar
Na Ocupação Esperança, no extremo sul de São Paulo, Dona Cida tem 58 anos e não se apresenta como liderança. "Eu só ajudo", ela costuma dizer. Mas pergunte a qualquer morador quem resolve os problemas ali e o nome dela aparece antes de qualquer outro. É ela quem medeia conflitos entre famílias, quem organiza o grupo de WhatsApp com avisos sobre ameaças de reintegração de posse, quem costura a relação entre os moradores e os advogados populares que acompanham o caso.
Histórias como a de Dona Cida se multiplicam por todo o país. Em favelas do Rio de Janeiro, em assentamentos do MST no Nordeste, em bairros periféricos de Belém e Manaus, mulheres como ela carregam o peso organizativo das comunidades sem que isso se traduza em reconhecimento formal, em cargo, em salário ou sequer em menção pública.
Isso tem um nome no feminismo: trabalho reprodutivo. Só que aqui não estamos falando apenas do cuidado doméstico — estamos falando de um cuidado político, coletivo, que sustenta movimentos inteiros.
Opressões que se acumulam, resistência que se multiplica
O que torna a liderança dessas mulheres ainda mais notável é o contexto em que ela acontece. Elas não organizam comunidades a partir de uma posição confortável. Organizam enquanto enfrentam, simultaneamente, o machismo dentro dos próprios movimentos, a violência do Estado, a precariedade econômica e, muitas vezes, a sobrecarga de ser mãe solo.
Juliana, 34 anos, moradora de um conjunto habitacional irregular em Fortaleza, conta que já foi chamada de "agitadora" pelo marido de uma vizinha quando começou a articular as famílias contra o corte irregular de água feito pela prefeitura. "Homem que faz isso é líder comunitário. Mulher que faz é encrenqueira", ela resume, com uma risada irônica que esconde uma dor real.
Essa dupla jornada — a da militância e a da sobrevivência — não diminui o engajamento dessas mulheres. Na maioria dos casos, o intensifica. Porque quando você é a pessoa que vai ser despejada, que vai perder a escola do filho, que vai caminhar quilômetros sem transporte público, a luta deixa de ser abstrata. Ela é urgente, concreta e pessoal.
Estratégias que os manuais não ensinam
Uma das coisas mais fascinantes ao observar a atuação dessas lideranças é perceber que elas desenvolveram formas de organizar que fogem completamente do modelo tradicional — aquele modelo vertical, com presidente, secretário e ata de reunião.
As redes que essas mulheres tecem são horizontais, relacionais e profundamente enraizadas na confiança. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE) já apontou que comunidades com forte presença de lideranças femininas tendem a ter maior capacidade de mobilização em situações de crise — exatamente porque as relações foram construídas ao longo do tempo, no dia a dia, e não apenas nas assembleias.
O cuidado é uma estratégia política. O afeto é uma ferramenta de organização. Isso não é fraqueza — é uma sofisticação que os movimentos mais tradicionais ainda estão aprendendo a reconhecer.
Quando o movimento também precisa ser questionado
Não dá para falar de lideranças femininas nas periferias sem falar sobre o machismo dentro dos próprios movimentos sociais. Essa é uma conversa difícil, mas necessária.
Várias mulheres ouvidas para este artigo relataram situações em que suas propostas foram ignoradas em reuniões e depois repetidas por homens como se fossem ideias novas. Ou em que foram preteridas para representar o movimento em espaços públicos, mesmo sendo as principais organizadoras. Ou em que foram sexualizadas, desacreditadas, chamadas de histéricas quando levantaram pautas específicas sobre violência de gênero.
"A gente luta contra o sistema lá fora e às vezes precisa lutar dentro de casa também — e dentro do movimento", diz Mariana, coordenadora de um coletivo de mulheres numa ocupação em Recife. "Mas a gente não desiste. A gente transforma."
Essa transformação tem acontecido. Movimentos como o MTST e o MST têm avançado — ainda que de forma desigual — na construção de espaços de liderança feminina e na adoção de políticas internas de enfrentamento ao machismo. O caminho é longo, mas ele existe porque mulheres como Mariana insistiram em abri-lo.
Reconhecer é também um ato político
A Caravana Solidária acredita que contar essas histórias não é só um exercício jornalístico — é um compromisso político. Quando invisibilizamos as lideranças femininas, reproduzimos a mesma lógica que os movimentos dizem combater.
Reconhecer quem faz o trabalho de base, quem costura as redes de solidariedade, quem garante que as famílias não sejam despejadas em silêncio — isso é parte da luta. É, talvez, uma das partes mais importantes.
Dona Cida, Juliana, Mariana. E tantas outras que não aparecem neste texto, mas que estão agora mesmo, neste momento, fazendo alguma coisa essencial por alguém que precisa.
A resistência tem nome. Tem rosto. E muitas vezes, tem uma vassoura na mão e um celular com sinal ruim tentando organizar a próxima reunião.
Essa é a linha de frente que a gente precisa aprender a enxergar.